No Dia Mundial sem Tabaco, entenda o papel de cada componente do cigarro no seu organismo

Por Carolina Gonçalves

O tabaco é mundialmente conhecido por seus malefícios. Segundo dados do censo 2010 do IBGE, 17,2% da população com idade superior a 15 anos consomem derivados de tabaco. Essa porcentagem equivale a aproximadamente 24,6 milhões de pessoas. Dentre os fumantes, 93% afirmavam saber que o cigarro causava doenças graves.

Mas, afinal, será que nós temos consciência de todos os malefícios que o cigarro pode causar a nossa saúde? E é por isso que hoje, no Dia Mundial sem Tabaco, conversamos com especialistas e descobrimos quais os efeitos devastadores que cada uma das principais substâncias do cigarro pode causar no organismo.

Tudo que tem no cigarro faz mal?

Sim, sem qualquer exceção. De acordo com o pneumologista Alberto de Araújo, presidente da comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, não existe nenhum componente no cigarro que não seja nocivo a nossa saúde. “Alguns componentes nós sequer conhecemos”.

O médico afirma que já foram identificadas mais de 5 mil substâncias na fumaça do tabaco, dentre elas gases e partículas cancerígenas, agrotóxicos usados durante o plantio da folha de tabaco e que são mantidos no processo de ressecamento para a fabricação do cigarro, dentre outros. Antes de mais nada é preciso entender que não existe limite seguro de consumo do tabaco. “Diferente do álcool, ele não pode ser consumido com moderação”, afirma Alberto.

A vilã mais popular
Quando se fala sobre cigarro e seus efeitos nocivos, logo pensamos na nicotina. Embora esteja longe de ser a única vilã presente no tabaco, ela é a principal agente causadora do vício.

Os especialistas afirmam que a nicotina consegue fazer em apenas 10 segundos todo o percurso por nosso corpo: ser inalada e absorvida pelo pulmão, entrar em nossa corrente sanguínea e desencadear um impacto cerebral, liberando substâncias que propiciam uma imensa sensação de prazer. “Essa rapidez de impacto cerebral só é comparada com a cocaína”, conta Alberto.

O vício começa justamente quando a nicotina se liga aos receptores do nosso sistema nervoso, desencadeando a liberação de diversas substâncias, como dopamina, que dão a sensação de prazer, melhoram da memória, deixam a pessoa mai alerta, tiram o apetite, entre outros. Esses sintomas são os que a pneumologista Maria Vera Castellano, membro da Sociedade Paulista de Pneumologia, chama de reforço positivo.

Porém, quando o nível de nicotina no sangue cai, isso mais ou menos umas duas horas depois do primeiro cigarro, a pessoa sente falta desse reforço positivo e tem uma crise de abstinência. Os sintomas relacionados à abstinência, ou reforço negativo, são irritação, nervosismo, dor de estômago, insônia e aumento do apetite.

As doenças relacionadas à nicotina são: aumento do ritmo cardíaco, infarto agudo do miocárdio, derrame cerebral, angina, elevação do colesterol ruim (LDL), menopausa precoce, gastrite, úlcera gástrica, enfisema pulmonar, bronquite crônica, doença obstrutiva arterial periférica, tromboangeite obliterante, obstrução progressiva das artérias que pode culminar em amputação, além dos sintomas agudos como irritações nasais, na garganta e nos olhos, tonturas e dor de cabeça.

Os perigos do alcatrão
Alcatrão é o nome que se dá ao conjunto de substâncias presente no tabaco e que são absorvidas pelo fumante quando ele acende o cigarro. Ele é responsável pelas manchas na pele, nos dentes e dedos do fumante, além de se depositar nos pulmões, deixando-o com uma coloração castanha escura. Segundo a pneumologista Maria Vera Castellano, ele está relacionado diretamente a cânceres no pulmão, bexiga, vias aéreas e brônquios.

Entre os seus compostos são encontrados cerca de 43 substâncias cancerígenas, entre elas:

Benzeno: ele está presente na composição de detergentes e da gasolina, além de ser utilizado como pesticida. “Ao ser inalado, ele é absorvido pelos pulmões, onde provoca danos irreversíveis”, diz Alberto. As doenças relacionadas à inalação do benzeno são enfisema pulmonar, asma (até nas crianças e adultos que são vítimas do fumo passivo) e câncer no fígado. “A exposição ao benzeno durante mais de 20 anos pode inclusive provocar leucemia”, completa Alberto.

Polônio: é um elemento radioativo, extremamente prejudicial a nossa saúde. A radiação produzida por esse isótopo, em situações normais, é bloqueada pelas camadas da nossa pele. Porém, quando inalada via fumaça, ela se deposita nas vias aéreas, emitindo radiação às células a sua volta, contaminando-as e causando tumores pulmonares.

Níquel: material usado na produção de aço inoxidável, moedas e pilhas alcalinas. O pneumologista Alberto de Araújo conta que, quando inalado, o níquel deposita-se no fígado, rins, coração, pulmões, ossos e dentes. “Sua inalação provoca alterações no estômago e aumenta as chances de infecções respiratórias e câncer”, diz o especialista.

Metais Tóxicos
No cigarro também é possível encontrar uma série de metais pesados, que são extremamente tóxicos ao nosso organismo e se depositam principalmente no fígado e rins. “O corpo leva de 10 a 30 anos para conseguir eliminar essas substâncias”, diz Alberto. Ele ainda afirma que pessoas com mais de 20 anos de vício podem não conseguir reverter todas as agressões, podendo causar complicações em algum desses órgãos. Dentre os metais pesados presentes no cigarro, os principais são esses:

Arsênio: ele é usado como pesticida durante o plantio do tabaco e não se perde durante a fabricação do cigarro. Uma vez dentro do corpo, ocasiona lesões no fígado, rins, coração, pulmões, ossos e dentes, onde fica armazenado.

Acetato de chumbo: comum em tinturas de cabelo, o acetato de chumbo afeta principalmente os pulmões e rins. “Quando em grandes quantidades, pode incapacitar ou dificultar a ventilação dos pulmões, gerando falta de ar, enfisema e câncer de pulmão”, diz Maria Vera.

Gases que matam
A fumaça que o fumante libera na atmosfera ao tragar o cigarro também é um veneno, não só para ele como para as pessoas que estão a sua volta e podem inalá-la. Os principais componentes da fumaça do cigarro e os riscos relacionados a eles são:

Monóxido de carbono: poluente muito comum na atmosfera, em ambiente fechado é o principal gás componente da poluição do tabaco. Os especialistas explicam que o monóxido de carbono, quando inalado, compete com o oxigênio na ligação com a hemoglobina. Ou seja: ele toma o lugar do oxigênio na ligação com nossas células sanguíneas, dificultando o transporte de oxigênio por todo nosso corpo, causando assim dificuldade de respirar. Ao se ligar às nossas hemácias ele também deixa o sangue mais grosso, fazendo com que nosso corpo tenha que produzir mais hemácias para suprir a quantidade parasitada pelo monóxido de carbono.

Os cigarros mentolados costumam ser porta para o vício de diversos jovens.

Por deixar nosso sangue mais denso, o monóxido de carbono pode facilitar a formação de plaquetas, que virarão trombos, que poderão obstruir as artérias e dar margem a doenças cardíacas e derrame cerebral. “Inclusive pessoas que não fumam, mas que já apresentam algum problema cardiovascular, podem sofrer de dificuldade respiratória, asma e até ataque cardíaco ao inalar a fumaça do cigarro”, conta Alberto.

“Se você tem muito monóxido de carbono no corpo pode ter tontura, diminuição do nível de consciência e desmaios”, diz Maria Vera.

Cetonas: mais conhecido como removedor de esmaltes em forma de acetona, as cetonas são um produto entorpecente e inflamável.

A inalação das cetonas em pequenas quantidades irrita a garganta e causa tonturas e dores de cabeça. Porém, se inalada em grandes quantidades pode causar uma intoxicação grave e levar a pessoa à morte.

Terebentina: é uma substância tóxica obtida através da extração de resinas de pinheiros. Muito conhecida como diluente e removedor de tintas a óleo. Ao ser inalada provoca irritação nos olhos, vertigem, desmaios e lesões no sistema nervoso, dependendo da quantidade.

Cigarros mentolados são mais ou menos vilões?
Os cigarros ditos mentolados são aqueles que possuem sabor, como menta e cravo. Muito popular entre adolescentes por ter um gosto mais doce do que os cigarros normais, os mentolados costumam ser o primeiro cigarro e porta para o vício de diversos jovens.

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Medicina e Odontologia de New Jersey, nos Estados Unidos, sugere que os cigarros mentolados fazem com que a pessoa tenha mais dificuldade para largar o vício. E isso se dá justamente por seu gosto refrescante, que mascara o amargo da nicotina e alcatrão.

A pesquisa revela ainda que as pessoas que fumam cigarros mentolados tendem a fumar menos cigarros por dia, porém, tragam mais profundamente, ficando assim expostas às mesmas quantidades de substâncias nocivas.

Segundo dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o número de marcas de cigarros com sabor já representa 22% dos tipos à venda.Uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Câncer aponta que 45% dos fumantes de 13 a 15 anos consomem os tais cigarros com sabor.

O presidente da comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia afirma que os aditivos presentes no cigarro mentolado não amenizam o efeito nocivo do tabaco, porém ainda não é possível medir as consequências do consumo desses aditivos. “Não sabemos como esses produtos são adicionados ao tabaco, já que é uma informação confidencial. Por isso é difícil dizer quais são as consequências da ingestão dessas substâncias”, afirma.

viaCorpo e Saúde | MSN Brasil.